Se
crescer já é difícil, imagine então crescer sozinho, sem mãe, pai, avó e
ainda com a responsabilidade de tomar conta de um irmão mais novo? Uma
responsabilidade imensa para quem tem uma vida boa, estabilizado
financeiramente e com recursos, ainda dá para resolver os problemas.
Agora, o que esperar se essa pessoa nasceu no interior da Bahia, em uma
família humilde e ainda teve que lutar para vencer as barreiras da vida,
como o álcool? Esse é apenas o início dos duros anos do volante
Ricardo Baiano, que, dos seus 32 anos de vida, tem mais histórias de
dificuldades para contar do que pessoas com o dobro da sua idade.
Nascido na pequena cidade baiana de Mirangaba, Ricardo Abrão do
Nascimento é filho de Maria Domice do Nascimento. Mas, o convívio com
ela, durou pouco tempo. Logo depois de dar à luz ao futuro jogador, dona
Maria teve que deixá-lo com a avó, já que teve que ir para Salvador,
trabalhar e sustentar os filhos. Apenas aos seis anos de vida, que
Baiano conheceu sua mãe. Mas, o que tinha tudo para ser um reencontro
definitivo, foi interrompido por uma tragédia. Três anos depois de
retornar para sua cidade Natal, dona Maria faleceu. Aos nove anos, sem
mãe e sem pai, já que nunca o conheceu, Ricardo Baiano passava pela
primeira provação de sua vida.
Emanuel Amaral
O volante chegou ao América no início da temporada e,
pela determinação em campo, virou ídolo
"É
muito complicado perder a mãe. Como não sabia quem era meu pai, já que
minha mãe nunca quis me dizer, fiquei só muito novo. Ainda dei sorte de
poder morar com minha avó e depois com minha tia. Graças a Deus que não
fui para o lado ruim da vida e sempre batalhei por tudo", relembra
Baiano. Sem muitas perspectivas, ele foi morar com a avó materna.
O convívio, mais uma vez, durou pouco tempo. A dona morte, mais uma
vez, fez uma incômoda visita a casa de Ricardo Baiano e levou sua avó.
Isso, dois anos depois de perder a mãe. Sem mais ninguém a quem
recorrer, foi morar com uma tia, dona Nite, que a considera como sua
segunda mãe. Não tendo como se sustentar, Baiano resolveu arregaçar as
mangas e aos 13 anos, começou a trabalhar. Durante a madrugada, se
virava em um açougue, esperando a carne para vender no mercado de
Mirangaba. Quando saia de lá, já no fim de manhã, corria para uma
panificadora, seu segundo emprego, para completar o dinheiro do mês. O
sonho de ser jogador de futebol persistia na cabeça daquele adolescente
de apenas 15 anos de idade. Chances até que teve nos times de Mirangaba
e das cidades vizinhas. Mas, mais uma vez, outra barreira se colocou a
sua frente: ainda jovem, iniciou a vida no álcool, o que lhe tirou
chances de se profissionalizar. "Comigo não tinha muita besteira não.
Sempre que tinha um tempo livre dos trabalhos, ia para os bares beber.
Comecei quando tinha de 12 para 13 anos. Parei há 10 anos, porque estava
atrapalhando meu rendimento dentro de campo. Mas, quando bebia, perdia a
noção de tudo, Ainda bem que nunca me envolvi com drogas e também com
problemas com a polícia. Só fazia mal a mim mesmo", revela. Foi
em uma bebedeira dessas, que conheceu seu melhor amigo, Nei. E, foi com
ele que conseguiu a primeira chance como jogador de futebol
profissional. O ano era 1998. Ricardo, então com 18 anos, ficou
sabendo que um dirigente do Ceará, estava na sua cidade atrás de jovens
valores para jogar na equipe cearense. Mas, a necessidade de trabalhar,
quase o impediu de realizar seu sonho. "Fiquei com medo de ir atrás do
pessoal do Ceará por dois motivos: primeiro, eu sabia que não era o
melhor jogador da cidade e não ia ter muitas chances. E o segundo, não
queria arriscar sair da minha cidade, ir bater no Ceará, abandonar meu
emprego e não ter sucesso. Mas, o dono da padaria em que trabalhava me
disse que, se eu não conseguisse sucesso no futebol, poderia voltar que o
emprego estaria garantido. Foi o incentivo que precisa. Fui embora",
afirma. A viagem com destino a Fortaleza não saiu como Ricardo e
os outros três amigos esperavam. Nenhum deles foi aproveitado nas
categorias de base do Ceará. Sem perspectivas, foram tentar a sorte no
Ferroviário/CE. E foi quando ela finalmente apareceu. E rápido. A
passagem de Baiano pelas categorias de base da equipe cearense só durou
uma semana. Mas, o sucesso e os bons contratados demoraram a
aparecer. Muito por causa da sua pouca técnica com a bola nos pés. Foi
quando ele decidiu mudar seu estilo e passou a se dedicar mais aos
treinamentos. "Só comecei a ter boas chances, quando estava com 28 anos.
Passei por 18 clubes até melhorar. Consegui isso a base de muito
esforço e dedicação. Sempre, antes dos treinamentos, ficava sozinho,
tentando aprimorar os passes, aprender a dar lançamentos. O pessoal até
pensava que eu era maluco, de tanto que treinava. Mas, tive a minha
recompensa", afirma. Perto de encerrar a carreira de jogador,
Baiano já pensa no futuro. O seu principal investimento, atualmente, é
na compra de terrenos, para construir casas e alugar. "Tem muito jogador
que pensa que o dinheiro vai durar para sempre. Não é bem assim. Do que
adianta sair a noite, gastar mil reais em bares? A única coisa é que
ele vai ficar mil reais mais pobre. Eu não faço isso. Prefiro economizar
para o futuro", afirma.
Felipe Gurgel - repórter de Esportes/Tribuna do Norte